Kobra: cores que encantam

Muralista brasileiro Eduardo Kobra é reconhecido pela originalidade de suas criações

Por Fernanda Tatsch

O muralista Eduardo Kobra, 40 anos, leva o colorido à paisagem cinza predominante das cidades. Expoente da neovanguarda paulistana, o artista abusa de cores e ganha o mundo com pinturas originais que se destacam pela riqueza de detalhes e precisão dos traços. 

Filho de pai tapeceiro e mãe dona de casa, Kobra cresceu em São Paulo e viveu uma infância simples empinando pipa e andando em carrinhos de rolimã. O início do que viria a ser sua profissão foi como pichador, tornando-se, após, grafiteiro. “As ruas me atraíam, o universo da pichação e dos desenhos em stencil e o estilo do hip hop”, conta. Kobra ficou conhecido com o projeto Muro das Memórias, no qual fez releituras de cenas antigas da capital paulista em um mural de 1000 metros quadrados, localizado na Avenida 23 de Maio. “Fui abduzido pela cultura, que me trouxe muitos benefícios. Aprendi muitos princípios e tive o prazer de descobrir, depois de muitos anos, que o que eu fazia tinha valor.”

Os primeiros trabalhos de Kobra foram em 1987, no bairro de Campo Limpo, com o “pixo” (jargão para o termo pichação) e o grafite. Embora essas práticas tenham uma conotação negativa, as obras de Kobra sempre foram realizadas com autorização dos proprietários. “Tenho até hoje fotos dos meus primeiros trabalhos, que datam de 1987 e 1988. Eram desenhos simples, um pequeno dinossauro e alguns super-heróis. Na época, Kobra era escrito com letra C e os desenhos eram feitos com tinta látex e cal, contornados com spray preto. Isso por conta dos valores dos materiais e dos poucos recursos disponíveis”, declara. Em 1995, já com seus trabalhos reconhecidos, fundou o Studio Kobra, destinado ao muralismo original inspirado em artistas reconhecidos e no design do americano Eric Grohe.

Com murais coloridos e ricos em detalhes, o artista transforma espaços neutros em grandes obras de arte e já deixou sua marca em âmbito internacional, com criações na Inglaterra, França, Grécia, Rússia, Estados Unidos, México, Suécia, Polônia, Japão, Emirados Árabes Unidos e Taiti. “O importante não é a cor, mas o objetivo. Por esse motivo, minhas obras transitam entre sépia, preto e branco e multicolorido. As variações dependem da escolha temática”, destaca. Ele também realiza pesquisas com materiais reciclados e novas tecnologias, como a pintura em 3D sobre pavimentos. Com relação aos materiais utilizados, enfatiza: “Depende do tipo de superfície e textura. Se for em vidro, é um tipo de tinta, em madeira e parede, outro. Geralmente utilizo látex acrílico, spray e tintas em esmalte sintético”.

Segundo Kobra, existe uma relação muito próxima entre grafite e mural, pois ambos estão inseridos na cultura de rua e possuem objetivos similares. Entre os nomes que serviram de inspiração na trajetória dele estão Banksy, Blu, Damien Hirst, Jeff Koons, Candido Portinari, Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros e Kurt Wenner. Contudo, o entusiasmo para as criações é espontâneo: “Busco inspiração em tudo o que vivo e vejo”.



O artista destacou Capão Redondo, bairro localizado na periferia de São Paulo, Avenida Paulista, Nova Iorque, Londres e Complexo do Alemão, morro carioca, como sendo os locais mais marcantes onde produziu murais. As obras de maior expressão, conforme ele, foram o mural Oscar Niemeyer, na Avenida Paulista, e o painel no High Line, parque suspenso de Nova Iorque, onde conquistou o respeito entre os demais muralistas. “O mural Oscar Niemeyer é um trabalho importante, porque, apesar de toda a minha história, cheguei a ser detido. Conseguir pintar um painel permanente na principal avenida brasileira é uma grande conquista”, ressalta.

Entre os projetos mais recentes de Kobra estão murais em Miami e o Mestre Yoda, personagem da franquia Star Wars, sustentando uma placa com a frase “Stop Wars”. Os planos para 2016 e 2017 são pintar murais em Nova Iorque, nos Emirados Árabes Unidos, no Japão, na Rússia e na Inglaterra. “Meu plano para o futuro é seguir pintando até o último dia da minha vida”, arremata Eduardo Kobra.